O início de uma nova era – Entrevista com o Embaixador do Reino Unido, Chris Sainty

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Diplomata de carreira, Chris Sainty, 53 anos, está em Portugal desde setembro de 2018, tendo passado boa parte da sua vida profissional a trabalhar em questões da União Europeia.
Com os efeitos da pandemia ainda difíceis de quantificar e o Brexit sempre presente, o embaixador de Sua Majestade reitera a vontade britânica de continuar a colaborar com a UE. É inevitável que a relação mude, mas a cooperação estreita continua a ser fundamental para a estabilidade internacional.
Sobre as relações com Portugal, o melhor – frisa – ainda está para vir.

Que lições ficam para o futuro após os efeitos devastadores provocados pela pandemia da Covid-19?
A Covid-19 transformou as nossas vidas, as nossas sociedades e as nossas economias como nenhum outro acontecimento que já testemunhámos. Vai levar tempo a absorver o seu impacto e a tirar as devidas lições. Mas aqui ficam algumas reflexões pessoais:
O mundo precisa de estar mais bem preparado para a ameaça de uma pandemia global. A tragédia da Covid-19 deu-nos um conhecimento e uma experiência que serão preciosos para orientar a nossa resposta no futuro.
As ameaças globais requerem esforços globais conjuntos. Vencer o vírus de forma definitiva depende de um grande esforço global para desenvolver uma vacina.
Já o sabíamos, mas a Covid-19 veio recordar-nos que mudando a forma como vivemos e trabalhamos, podemos proteger o nosso precioso planeta muito melhor.
Podemos definir melhor as nossas prioridades; pensar melhor sobre aquilo que compramos e consumimos; e desperdiçar menos.
Não poderemos esquecer a extraordinária coragem e dedicação dos milhares de pessoas que trabalham nos nossos setores da saúde, muitas das quais arriscaram tudo para salvar as vidas de outros.

Já escreveu que este pode ser um tempo para reavaliar prioridades e concentrar esforços com vista a um desenvolvimento económico mais sustentável. Acredita realmente que alguma coisa pode mudar no nosso comportamento social e no nosso modo de vida?
Sim, acredito. Temos de pensar de forma positiva. A experiência do confinamento mostrou que as pessoas têm uma capacidade incrível para se adaptarem a uma nova forma de trabalhar e de viver. Acho que estamos todos a chegar à conclusão de que o mundo simplesmente não voltará a ser como era antes: agora estamos a configurar o que será o novo “normal” no futuro e creio que é um momento único de oportunidade para mudar as coisas para melhor.
A Covid-19 levou a uma paralisação sem precedentes de grande parte da economia global, com consequências graves para todos os países. Reconhecemos este imenso desafio e sabemos que os países desenvolverão planos de resposta adaptados às suas próprias circunstâncias. Mas todos temos de fazer escolhas. À medida que formos recuperando, as decisões que tomarmos poderão constituir as bases para um crescimento sólido, sustentável e inclusivo; ou poderão contribuir para fixar emissões poluentes que irão perdurar ao longo de décadas, e que tornarão o nosso meio ambiente ainda mais vulnerável.
O coronavírus serviu para nos recordar dos riscos associados à exploração da natureza pelos seres humanos, bem como da vulnerabilidade da humanidade. Agora, temos a oportunidade de proteger e revitalizar o nosso planeta e a sua biodiversidade, reduzindo a nossa exposição a vírus mortais e impactos climáticos.
Ao exercer a Presidência da Conferência das Partes na Convenção sobre as Alterações Climáticas, o Reino Unido está empenhado em aumentar o nível de ambição em matéria do clima. Defenderemos o Acordo de Paris e a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, pois são orientações cruciais para que a recuperação desta crise da Covid-19 se faça de forma sustentável.

A saída do Reino Unido da União Europeia vai tornar o seu país menos europeu? É um virar de costas à Europa?
Não, nós nunca vamos virar costas à Europa e nunca nos vamos tornar menos europeus. Mas a realidade é que saímos da UE e é inevitável que a nossa relação com a UE mude. A nossa nova parceria deve basear-se nos nossos laços comuns de amizade e de cooperação. Mas como Estados soberanos em igualdade de circunstâncias, com maior autonomia democrática.
Queremos muito que este momento seja o início de uma nova era de cooperação e amizade entre o Reino Unido e a UE. Queremos forjar laços cada vez mais fortes com os nossos vizinhos europeus para o futuro, em todas as áreas da nossa cooperação. Porque essa cooperação estreita é fundamental para a estabilidade internacional, ajudando-nos a enfrentar desafios globais e a promover os nossos interesses e valores partilhados no mundo.
Continuaremos a trabalhar em estreita colaboração com nossos parceiros europeus na NATO, reconhecendo que a segurança europeia é vital para a segurança do Reino Unido. Continuaremos a defender o livre comércio – beneficiando empresas, reduzindo custos para os consumidores e ajudando os países mais pobres do mundo a alcançar uma verdadeira independência económica.
Queremos dar o exemplo na estratégia de ação climática – uma área em que a Europa é líder mundial. No próximo ano, em parceria com a Itália, seremos coanfitriões, em Glasgow, da Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (a COP26), que reunirá líderes mundiais com o objetivo de impulsionar uma ação global no combate às alterações climáticas. E, fiéis aos valores europeus que partilhamos, continuaremos plenamente empenhados na promoção dos direitos humanos universais e das liberdades fundamentais.

Portugal e o Reino Unido partilham uma longa história de amizade, cooperação e relações comerciais intensas. O Brexit pode prejudicar esta relação?
Não, a nossa saída da UE não diminui, de forma alguma, o nosso empenhamento relativamente à relação diplomática mais antiga do mundo. Somos amigos e aliados há mais de sete séculos. A história é muito poderosa e serve de base para a nossa parceria bilateral que se mantém muito próxima hoje em dia.
Temos ligações muito fortes entre as pessoas, com uma comunidade portuguesa muito significativa no Reino Unido – estimada em cerca de 400 mil pessoas – que dão um contributo notável para a nossa economia e para a nossa sociedade; e uma comunidade de residentes britânicos em Portugal considerável, que também aqui contribuem significativamente para a economia e para a sociedade. Isso não vai mudar, considerando as garantias dos nossos Governos de que os cidadãos que já vivem e trabalham em Portugal e no Reino Unido aí podem permanecer, e que terão os seus direitos permanentemente protegidos.
Os turistas e os visitantes britânicos sempre gostaram muito de Portugal e do povo português. No ano passado, cerca de três milhões de britânicos visitaram Portugal. Embora as restrições da Covid-19 tornem as viagens e o turismo mais difíceis este ano, não tenho dúvidas de que os britânicos voltarão em breve em grande número.
Também temos fortes laços na educação e na ciência. Académicos portugueses e britânicos trabalham lado a lado em muitas das instituições mais prestigiadas de ambos os países, e essa troca vital de conhecimento vai continuar a desempenhar um papel crucial para ajudar a encontrar soluções para os desafios que enfrentamos. Essas pessoas continuarão a ser bem recebidas nos nossos países no futuro.  É de referir que um em cada cinco cientistas portugueses que trabalham fora de Portugal, estão no Reino Unido.
Em termos de comércio e investimento, temos uma forte relação que continuou a prosperar, apesar das incertezas dos últimos anos. O Reino Unido continua sendo o quarto maior investidor em Portugal; e o quarto maior destino para as exportações portuguesas.
A principal razão para nossa parceria duradoura sempre foram os interesses e valores partilhados. Sempre fomos, e continuaremos a ser, nações marítimas e atlânticas, e temos posições semelhantes sobre as principais questões de política externa, segurança e defesa. O Reino Unido continuará plenamente empenhado na defesa europeia e trabalharemos em estreita colaboração com Portugal no quadro da NATO. No ano passado, o Reino Unido tornou-se um Observador Associado da CPLP, e vemos grande potencial para trabalharmos juntos neste contexto, em particular no continente africano.

Os cidadãos britânicos residentes em Portugal e os portugueses que trabalham no Reino Unido podem então continuar a dormir descansados?
Desde 2016, cidadãos britânicos residentes em Portugal e portugueses residentes no Reino Unido têm estado preocupados com o seu futuro estatuto de residência e direitos. Quero salientar que esses direitos estão permanentemente protegidos pelo Acordo de Saída assinado entre Reino Unido e UE – o direito de continuar a viver e a trabalhar no país em que vivem atualmente. O Acordo de Saída é um tratado internacional, vinculativo ao abrigo do direito internacional. Por isso, transmite grande segurança aos nossos cidadãos.
No entanto, gostaria de aproveitar esta oportunidade para recordar aos interessados que devem certificar-se de que têm a sua documentação em ordem, se ainda não o fizeram. Os cidadãos britânicos residentes em Portugal devem solicitar residência em Portugal. Os cidadãos portugueses residentes no Reino Unido devem solicitar o regime de settled status no Reino Unido. Quase 250 mil cidadãos portugueses já obtiveram ou o settled status ou o pre-settled status, garantindo assim que o seu direito de permanecer no Reino Unido está totalmente protegido.

O valor do comércio global entre Reino Unido e Portugal ascendeu a 12,3 mil milhões de euros em 2018, 40% mais do que em 2008. Chegámos ao pico da montanha ou ainda há margem de crescimento?
Se há algo que a história nos ensinou é que as nossas duas nações têm uma capacidade inata para se reinventarem, também nas relações comerciais. Portugal e o Reino Unido partilham muitos interesses. Somos nações marítimas com uma visão global, empenhadas na defesa do livre comércio e na defesa dos mercados abertos que criaram as condições para o crescimento das nossas economias ao longo dos séculos. Para que o nosso comércio continue a prosperar teremos de trabalhar em conjunto para modernizar os nossos mercados. Acredito que o melhor ainda está para vir, com excelentes novas oportunidades em áreas como a tecnologia e as energias limpas. O Reino Unido está bem posicionado e empenhado em apoiar Portugal na transição para baixo carbono – desde a energia inteligente (smart energy) aos veículos elétricos. Mas é óbvio que estaremos em melhores condições para prosseguir este objetivo se o Reino Unido e os seus parceiros europeus conseguirem estabelecer um acordo de comércio forte que abranja o comércio livre de bens e uma cooperação ampla e ambiciosa em serviços.
Esse é o nosso desafio, e é nesse sentido que a nossa equipa comercial na Embaixada em Lisboa trabalha todos os dias na promoção do comércio, investimento e políticas comerciais entre Portugal e o Reino Unido.

O Reino Unido acolherá em 2021 a Conferência da ONU sobre Alterações Climáticas (que estava marcada para novembro, em Glasgow, e foi adiada por causa da Covid-19). Os países não estão a andar demasiado devagar na redução das suas emissões poluentes?
Antes da Cimeira da Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP26) em Glasgow, começarão a desencadear-se os esforços para reconstruir a economia global. Estes devem centrar-se no apoio a uma recuperação limpa, inclusiva e resiliente, com base nos princípios do Acordo de Paris e dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. No âmbito do Acordo de Paris, os países devem ainda apresentar em 2020 estratégias de longo prazo e contribuições fixadas a nível nacional (metas climáticas). Todos compreendemos a falta de capacidade que os países têm neste momento devido à crise da Covid-19, mas o Reino Unido está ainda assim a encorajar os países a reforçarem o seu nível de ambição.
Todos devemos apoiar uma recuperação verde e resiliente que vá para além de cumprir os compromissos atualmente existentes. Estamos a lutar por uma ambição muito maior em todo o mundo – maior redução das emissões de carbono, reforço da resiliência face às alterações climáticas, cooperando e apoiando-nos uns aos outros. Desde a COP25 em Madrid no ano passado, existem 121 países, empresas e cidades, que se comprometeram a desenvolver planos para atingirem emissões neutras de carbono no âmbito da Aliança da Ambição pelo Clima.
O reagendamento da COP26 para 2021 dará a todos os países o tempo e o espaço para se centrarem nas questões cruciais da conferência e mais tempo para garantir que a Cimeira mantenha a ambição e que seja bem-sucedida. As alterações climáticas ameaçam futuros e destroem meios de subsistência. É, sem dúvida, a nossa maior ameaça a longo prazo. Como comunidade global, simplesmente não nos podemos dar ao luxo de falhar no maior desafio do nosso tempo. Devemos por isso redobrar os nossos esforços para garantir que seremos bem-sucedidos.

Chegou a Lisboa em 2018. O que mais o surpreendeu quando se instalou em Portugal? E o que mais o agradou, tanto em relação ao país como aos portugueses?
O que mais me marcou quando chegámos a Portugal em 2018 foi a forma calorosa como eu e a minha família fomos recebidos. Onde quer que fôssemos, éramos recebidos de braços abertos e com amizade. Tenho a certeza de que muitos embaixadores noutros países dizem o mesmo, pelo que terão de acreditar em mim – foi muito diferente de qualquer outra experiência que tivemos em qualquer outro lugar do mundo. Fico feliz por verificar que este sentimento não se alterou.
Há muitas coisas de que gosto muito em Portugal e no seu povo. Estou particularmente impressionado com o valor que os portugueses atribuem à sua história e às suas tradições. Tive essa experiência em primeira mão por ocasião do 25 de abril deste ano, quando toquei as duas músicas da Revolução dos Cravos – Grândola e E depois do Adeus – ao piano. Fiquei impressionado com a resposta. Portugueses um pouco de todo o país, do Reino Unido e de outras partes do mundo, enviaram-me centenas de mensagens de agradecimento extraordinariamente comoventes. Foi um privilégio enorme sentir esta ligação emocional com Portugal.

Que marca gostaria de deixar, como embaixador, desta sua passagem por Portugal?
Os embaixadores vêm e vão, e são rapidamente esquecidos depois de partirem. Não espero deixar uma marca pessoal, apesar da minha tremenda admiração e afeição que tenho por este país. Mas aprendi nestes dois anos em Portugal que há algo de muito marcante e único entre Reino Unido e Portugal – a amizade histórica e a aliança de que já falei.
Este aspeto não só sobreviverá, como acredito que será uma plataforma para todo o tipo de iniciativas entre os nossos dois países no futuro. Tento não pensar em deixar Portugal – afinal, espero estar aqui por mais alguns anos – mas quando chegar a hora ficarei satisfeito se a relação estiver a prosperar: a nível social, económico, político e, talvez o mais importante de tudo, ao nível da relação entre britânicos e portugueses.

 

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