Latino-americanos premeiam líderes ‘protetores’ e afastam ‘negacionistas’

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Os líderes latino-americanos que tomaram cedo medidas drásticas contra a propagação do novo coronavírus ganharam popularidade enquanto os que minimizaram o problema perderam capital político no primeiro mês de combate à pandemia, consideram analistas ouvidos pela agência Lusa.
No grupo dos ganhadores, aparecem os líderes de Argentina, Peru, Chile, mas também de El Salvador e de Guatemala. Entre os perdedores, aparecem México, Equador e Brasil.
“Talvez a melhor divisão para o que acontece na América Latina esteja no grau de acatamento de cada Presidente às recomendações da OMS. Aqueles que mais cumprem com essas recomendações, melhor imagem têm. Aqueles que menos cumprem, pior imagem têm”, explica à Lusa o analista político argentino, Rosendo Fraga, diretor do Centro de Estudos União para a Nova Maioria.
Na Argentina, um dos primeiros países a proibir voos, fechar fronteiras e a adotar o isolamento social, total e obrigatório, a popularidade do Presidente Alberto Fernández subiu de 67% a 82% de popularidade, segundo a consultora Poliarquia.
“A sociedade argentina abraçou um protetor a quem defende tanto em termos pessoais quanto em termos de políticas de Estado”, descreve o analista político argentino, Jorge Giacobbe.
No Peru, o Presidente Martín Vizcarra viu a sua popularidade aumentar de 52% a 87% de popularidade, segundo a consultora Ipsos.
Vizcarra foi um dos primeiros a decidir quarentena total no país, com toque de recolher, e anunciar uma ajuda financeira às famílias e às empresas em torno de 12% do PIB, a maior da região, medida permitida pela estabilidade e alto crescimento económico no Peru nos últimos anos.
No Chile, o Presidente Sebastián Piñera conseguiu duplicar a sua popularidade, abalada por protestos populares contra a desigualdade social, de 10% para 19%, segundo a consultora Cadem.
“Se o número de mortes se mantiver baixo, o Governo Piñera terá um surpreendente renascer. Não será suficiente para virar o jogo, mas será importante na mesma”, acredita o sociólogo e analista político chileno, Patricio Navia.
O sistema institucional chileno exibe a sua força e o sistema de saúde permite a taxa mais baixa de óbitos na região (0,95 a cada 100 mil habitantes), sendo o país que mais testes diários faz.
Piñera aproveita para mostrar os seus pontos fortes. É um pragmático que toma bem as decisões em tempos de crise. Demonstrou isso durante o terramoto de 2010 e durante o resgate dos 33 mineiros também em 2010. Ele conta com o aparelho de um Estado com mais recursos e com mais capacidade instalada do que a de outros vizinhos”, compara Navia, professor da chilena Universidade de Diego Portales e da norte-americana New York University.
Mas os campeões de popularidade estão na América Central. O Presidente de El Salvador, Nayib Bukele, atingiu 97% de popularidade e o da Guatemala, Alejandro Giammattei, 89%, segundo a consultora da Mitofsky.
El Salvador fechou o país a estrangeiros, aplicou uma quarentena obrigatória, fechou o aeroporto internacional, suspendeu o pagamento de impostos e anunciou um ambicioso plano para sustentar a economia.
O Presidente guatemalteco também aplicou medidas radicais, proibindo voos e paralisando boa parte do país antes inclusive do primeiro contágio e depois aplicou uma quarentena total com toque de recolher.
Os latino-americanos tendem a entregar-se à proteção do líder, ainda mais quando têm medo, dizem os analistas. “Quanto mais medo do coronavírus e quanto maior a sensação de proteção do Estado, melhor será a imagem do Presidente e a aprovação das gestões. Isso é absolutamente linear”, considera Jorge Giacobbe.
No grupo dos perdedores chama a atenção o Equador. O Presidente Lenín Moreno não minimizou o problema e adotou o isolamento total com toque de recolher.
Mas Lenín Moreno enfrenta críticas de medidas ineficientes somadas a um sistema de saúde pública deficiente num país com uma situação económica já delicada e a sua popularidade caiu de 18% a 14%, segundo a consultora Mitofsky.
Na cidade de Guayaquil, com o sistema funerário em colapso, os cadáveres amontoam-se, chocando o país.
“A situação já era péssima, agora é caótica. O país depende do preço do barril de petróleo que desabou. O Presidente tem dificuldades para tomar as medidas necessárias porque não há recursos”, avalia à Lusa o analista político equatoriano, Simón Pachano, da Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais (FLACSO).
Brasil e México, as duas maiores economias da América Latina, respetivamente, são as que desdenharam a importância da pandemia da covid-19.
No México, o Presidente Andrés Manuel López Obrador viu a sua popularidade cair de 58,7% a 48,7% segundo a consultora Mitofsky.
López Obrador minimizou a gravidade do assunto, pediu que os mexicanos saíssem e continuassem a consumir e cumprimentou nas ruas seguidores. Quando percebeu a queda na popularidade, mudou de postura.
Quem não mudou de opinião foi Jair Bolsonaro, Presidente do Brasil, que classificou a covid-19 de “gripezinha” e só não continua a pedir que os brasileiros voltem às ruas porque os demais poderes avisaram que o poderiam acusar criminalmente se pregasse medidas contrárias às recomendações da OMS.
A sua popularidade caiu de 35 para 33%, segundo o Datafolha, ou até mais, de 34% a 28%, segundo a XP Investimentos. Já o seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, a favor do isolamento social, subiu de 55% a 76%.
A região está a ponto de sair da primeira fase, a da prevenção, passando à fase da pandemia em que os sistemas de saúde serão postos à prova e terão de responder à multiplicação dos casos. Aí e depois nas respostas à devastadora recessão económica que se adivinha as popularidades dos líderes terão duras provas de resistência.

 

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