Entrevista ao Presidente da Câmara Municipal de Ponte de Sor, Hugo Hilário

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Sendo Ponte de Sor um Município do interior de que argumentos dispõem para captar investimento?
Deixe-me em primeiro lugar fazer um enquadramento breve daquilo que tem sido a história mais recente deste nosso Concelho.
Uma das multinacionais do sector automóvel e que era a principal empregadora do Município, a Delphy, encerrou há cerca de 7 anos e nós tivemos de encontrar soluções para tentar debelar aquilo que, sendo um constrangimento normal neste tipo de territórios do interior, teve um impacto muito grande em Ponte de Sor.
E nós tivemos de ter a audácia e um trabalho muito árduo para tentar recuperar aquilo que diz respeito ao investimento mais tradicional deste território, que passa pelos sectores agroalimentar e agroflorestal e dessa forma reforçar o investimento na indústria da transformação da cortiça, que é hoje o maior sector empregador do Município.
Em relação ao sector agroalimentar, é também importante hoje a indústria transformação do pimento e do pimentão sendo que Ponte de Sor tem hoje uma das maiores empresas do país.
Mas o que nos diferenciou e veio dar suporte e alento a esta comunidade foi de facto de termos conseguido atrair investimento para o pequeno cluster que criámos no sector aeronáutico e que veio dar a oportunidade de nos últimos anos reduzir substancialmente a taxa de desemprego do Concelho. Aliás, Ponte de Sor foi o segundo Concelho do país que mais reduziu a taxa de desemprego entre 2013 e 2016.
Há uns anos foi construído um aeródromo, ainda pelo executivo anterior, com o objectivo de criar uma pequena pista para testes para uma fábrica que existia na zona industrial e que produzia aviões ligeiros. Em 2016 o Estado lançou um concurso para a sede dos meios aéreos da protecção civil onde um dos requisitos era ter uma pista com dimensão e estrutura para um tipo de avião que seria utilizado no combate aos incêndios. Esses aviões acabaram por não ser adquiridos e nós ficámos com uma pista de 1.800 metros e uma enorme infraestrutura. E o nosso desafio acabou por ser encontrar formas de dinamizar e rentabilizar essa estrutura. E conseguimos.
Hoje o aeródromo já emprega mais de 300 pessoas, além da Protecção Civil temos duas empresas de manutenção de aviões ligeiros e uma empresa de manutenção de aviões pesados, temos uma empresa de componentes, temos a líder nacional e uma das melhores empresas europeias na produção de drones, que é a Tekever, que acabou de ganhar um concurso de 70 milhões de euros, lançado pela Agência Marítima Europeia para a realização de operações em todo o Atlântico e Mediterrâneo e temos a escola de pilotos que foi agora adquirida pela multinacional americana L3, líder mundial neste sector.
E a partir daqui as coisas mudaram e o investimento na aeronáutica começou a crescer por si só. Esta dinâmica que conseguimos incutir permitiu que os investimentos feitos atraíssem outros investimentos. E somos hoje um território muito atractivo para os investidores, com um preço por metro quadrado muito inferior ao resto do país, um espaço aéreo pouco congestionado e condições meteorológicas muito favoráveis.

Numa entrevista que deu no final do ano passado afirmou que a captação de investimento para o sector aeronáutico ainda estava apenas a começar. Que projectos têm em marcha neste momento?
Sabe que a evolução nestes últimos anos tem sito tal, que aquilo que eu disse no final do ano passado já mudou, para melhor.
Apenas para dar um pequeno exemplo, a Escola de Pilotos, em Dezembro do ano passado, tinha cerca de 200 alunos. Hoje tem mais de 500 e vai ter cerca de 1.000 a curto prazo.
Obviamente que depois de atrair para Ponte de Sor empresas como a Tekever, a L3 e outras, temos um mundo de possibilidades à nossa frente.
Estamos a ampliar o nosso centro de negócios, vamos evoluir para o espaço, através da Tekever que é muito avançada na tecnologia de satélites e vamos avançar para a manutenção de aeronaves de grande porte.
Entendemos também que todo o investimento aqui feito nunca poderia ficar órfão do conhecimento e como tal era imperioso ter as Universidades connosco. E hoje, temos a trabalhar connosco 8 universidades e outras que se irão juntar a nós brevemente. E isto porque a questão do desemprego já não é hoje o nosso problema. O nosso problema agora é a requalificação dos nossos recursos para fazer face às exigências deste sector aeronáutico, que é tecnologicamente e globalmente avançado.
Porque não está a ser difícil atrair recursos humanos qualificados de fora do concelho e até de fora do país. Nós é que não podemos deixar de requalificar os nossos próprios recursos, para que estes não sejam ultrapassados pelos que vêm de fora.
É claro que estamos hoje a sofrer um pouco as chamadas “dores de crescimento” que passam, por exemplo, pela preparação de uma comunidade inteira para uma nova realidade. Mas também é claro que este é o tipo de problemas que preferimos ter.

A Escola de Pilotos tem alunos do mundo inteiro. Qual é o impacto dessa diversidade de nacionalidades no Município?
O impacto é total. Nós hoje apercebemo-nos, nos cafés e nos restaurantes que por vezes não percebemos o que se diz na mesa do lado porque se é verdade que se fala inglês ou francês, também é verdade que se fala paquistanês ou árabe. Estamos a falar de alunos de todo mundo de mais de 30 nacionalidades.
Nós temos hoje uma comunidade multicultural e multirracial onde as pessoas, sejam elas empregados de mesa, mecânicos ou lojistas se preocupam em comunicar. Daí também a importância destes protocolos que temos com as universidades e dos vários cursos de línguas que estão a funcionar. E isto é extraordinário. Serem as populações a revelar o interesse e a necessidade de comunicar com todas estas pessoas que vêm de todo o mundo para Ponte de Sor.
Na Educação por exemplo, nós temos projectos ao nível do pré-escolar, premiados ao nível da Comunidade Europeia com o Selo Europeu das Línguas. Tal como temos outros premiados a nível nacional.
Este é um exemplo, a par do interesse das pessoas na requalificação profissional, do impacto que esta escola está a ter em Ponte de Sor.
Porque não nos podemos esquecer que esta realidade não se limita aos alunos. Estende-se aos Professores, aos Monitores, aos técnicos. Tudo gente que é recrutada em todo o mundo e que, até porque são pessoas bem remuneradas, instalam-se aqui com as suas famílias.
É claro que isso depois coloca-nos outros problemas indirectamente, ao nível da nossa capacidade de resposta no que respeita à oferta imobiliária, à saúde ou à Hotelaria para dar apenas alguns exemplos. Mas essas são, como disse anteriormente, as “dores de crescimento” que de uma forma ou outra teremos de ir sabendo ultrapassar.
A verdade é que o concelho tem sabido reinventar-se e as ofertas imobiliárias ou turísticas têm acompanhado o crescimento, criando em paralelo mais emprego, o que é excelente.
Portanto, o impacto tem sido muitíssimo positivo.

 Sendo Ponte de Sor hoje este importante cluster aeronáutico, não acha que o governo português já deveria ter melhorado as acessibilidades ao Município?
Eu tenho uma visão muito própria sobre este tema. Na minha opinião, para que o governo central possa investir milhões na construção de acessibilidades, os Municípios têm de justificar essa necessidade. Isto para evitar erros do passado em que, como todos sabemos, existiu alguma má gestão de dinheiros públicos.
Nesse sentido eu entendo que as acessibilidades não devem ser feitas para atrair investimento.
A existência do investimento é que deve fazer com que o Município possa e deva reclamar essas acessibilidades ao governo central.

E não acha que Ponte de Sor já está nesse ponto? Que já pode reclamar o investimento nas acessibilidades?
Sim. Já estamos nesse ponto. E sim, já reclamámos. No entanto, também acho que não temos umas acessibilidades assim tão más. Estamos a uma hora e meia de Lisboa ou de Coimbra e estamos a uma hora de Espanha e de Castelo Branco.
Agora é óbvio que se estivéssemos a menos de uma hora de Lisboa seria muito melhor, para nós e para os concelhos vizinhos porque não nos podemos esquecer que Ponte de Sor pode atingir um ponto de saturação e ser necessário estender actividades para os concelhos vizinhos.

 Continuando a falar de infraestruturas, como está oferta turística de Ponte de Sor?
Nós temos obviamente uma grande mais-valia que é a albufeira de Montargil. É claro que por via das dificuldades que o Município atravessou e também por via da crise nacional e internacional, não houve até hoje grande investimento da nossa parte na albufeira de Montargil.
Mas, a partir de 2010, com aparecimento de uma unidade de 5 estrelas, que é sucesso em termos de taxa de ocupação e de outras que se seguiram, as coisas começaram a mudar. É claro que o próprio boom do turismo em Portugal nos últimos anos contribuiu para esta mudança. Mas a transformação da dinâmica do concelho é a maior das razões para esta mudança que se começa a verificar. Nós hoje temos todos os dias novos projectos turísticos a chegar à Camara e existem vários já em desenvolvimento.
E portanto, a curto prazo, a oferta turística de Ponte de Sor vai mudar radicalmente nos próximos tempos, incluindo um projecto diferenciado na albufeira de Montargil, que incluirá uma praia fluvial mas será muito mais do que isso.

 Qual é a importância que o Portugal Air Summit tem nesta estratégia de desenvolvimento aeronáutico?
A determinada altura, quando o município já se sentia confortável com as infraestruturas e com o investimento feito neste sector achámos que estava na altura de ir para fora “vender” este produto.
Para isso é necessário em primeiro lugar que o país acredite e para acreditar tem de conhecer e para conhecer tem de vir cá. E a verdade é que quando os potenciais investidores vêm conhecer as nossas condições, ficam convencidos.
Em Janeiro de 2016 uma empresa de fora apresentou-nos um projecto para a realização de um show aéreo no nosso aeródromo, que aconteceu e correu muto bem mas que depois nos colocou o desafio de saber o que fazer no ano seguinte para dar continuidade à iniciativa.
Sendo o nosso objectivo captar investimento, pensámos fazer em 2017, além do show aéreo, uma conferência e para isso falámos com os principais players do sector, desde a Autoridade Nacional da Aviação Civil, até ao Ministério da Defesa Nacional, passando pelo AICEP, e pelo IAPMEI, entre outros. E rapidamente percebemos que havia muito interesse e motivação para que o nosso pais tivesse um evento no sector da aeronáutica. E foi a partir desse interesse que decidimos fazer o Portugal Air Summit, que rapidamente evoluiu de uma conferencia de uma manhã para um evento de 3 dias.
O primeiro Portugal Air Summit acabou por ser um enorme sucesso. Em 2018 repetimos e foi ainda melhor, com mais público, mais empresas e mais universidades e estamos hoje num ponto em que o Portugal Air Summit é a grande cimeira aeronáutica do nosso pais e não apenas de Ponte de Sor.

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