Entrevista a Paulo Nascimento, Embaixador de Portugal no Senegal

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Paulo Nascimento está no Ministério dos Negócios Estrangeiros desde 1992. Passou cinco anos em Portugal nos serviços do Médio Oriente e Magrebe, que na altura se chamava Direcção Geral de Negócios Políticos e Económicos. Depois disso esteve quatro anos em Cabo Verde, entre 1996 e 2000. De 2000 a 2005 esteve na nossa delegação junto à OCDE, em Paris, onde era essencialmente responsável pelo acompanhamento das questões de cooperação para o desenvolvimento, chamado Comité de ajuda ao desenvolvimento, mas também acompanhou outras áreas como o comité das relações externas, a questão do centro de desenvolvimento, nas presidências de Braga de Macedo e de Basílio Horta, embaixador na OCDE.
Depois de Paris e regressou a Lisboa onde esteve dois anos como director de serviços dos serviços económicos multilaterais, apanhando a presidência portuguesa da UE.
Foi chefe de gabinete do secretário-de-estado dos Negócios Estrangeiros da Cooperação de onde saiu para ir para Pequim, onde esteve durante cerca de três anos, até 2012. Quando regressou a Portugal ficou como vice-presidente do Instituto Camões, na fase da fusão entre a Cooperação Portuguesa e o Instituto Camões, que deu origem ao Camões Instituto da Nação e da Língua, saindo finalmente para Dakar em 2014. 

 

Desde que aqui chegou em 2014, tem notado um grande desenvolvimento económico no Senegal?
O desenvolvimento económico do Senegal é visível e o resultado da estabilidade politica de que tem beneficiado o país, praticamente, desde a sua independência. A estabilidade política e social tem-se refletido, naturalmente, na capacidade de atração e captação de investimento externo que conduzem ao crescimento económico.
Uma das coisas importantes de notar em relação ao Senegal é que será dos poucos países em África onde as transições políticas foram sempre pacíficas. O país não tem uma história de conflitos internos – podemos abrir uma exceção para o chamado conflito de Casamansa, mas importa reter que o impacto deste, não sendo de menosprezar, está claramente delimitado. O Senegal não tem na sua história qualquer “golpe de Estado”. Existe uma clara subordinação das forças de segurança e das Forças Armadas ao poder político (como é típico dos regimes democráticos) e isto tem garantido um longo período de paz e estabilidade que tem favorecido e facilitado passos concretos em termos de desenvolvimento.
Em 2012, a eleição do Presidente Macky Sall, deu continuidade a este paradigma de desenvolvimento.
Verificou-se a adoção de linhas estruturais de desenvolvimento do país, através do chamado Plano Senegal Emergente. No quadro deste tem se vindo a verificar um forte investimento público num conjunto de setores determinantes para o desenvolvimento, nomeadamente em infraestruturas de transportes, vejam-se a recuperação de diversas estradas no país, a finalização da construção do novo aeroporto e da autoestrada entre este e a cídade de Dakar, o crescimento e infraestruturação da nova zona de implantação económica e industrial em Diamniadio (na proximidade de Dakar e do novo Aeroporto Blaise Diagne), a criação de zonas francas especiais. Todas estas realizações criaram uma dinâmica de investimento, também privado, e melhoraram a atratividade internacional do país como destino de investimento.
Mas o Senegal tem, como vários outros países, desafios relacionados com a sustentabilidade do desenvolvimento, quer a nível ambiental – as alterações climáticas e os desafios que coloca a todos os países são reais e o Senegal não é uma exceção – quer ao nível da sustentabilidade económico-social, ao nível da educação, criação de emprego, habitação entre muitos outros aspetos aos quais as autoridades senegalesas, por si mesmas e com o apoio da Comunidade Internacional, têm procurado dar resposta.

O que podem as empresas portuguesas esperar do Senegal se quiserem investir?
O Senegal é, atualmente, entre os países africanos, um dos que tem uma taxa de crescimento da economia mais elevada, comparável à que se verificava, há alguns anos atras, nos países produtores e exportadores de hidrocarbonetos (petróleo, gás natural). A perspetiva de que o Senegal venha a tornar-se, no curto prazo, num país produtor e exportador de petróleo e gás, reforça este olhar otimista sobre o futuro da sua economia.
Além do mais, a estabilidade macroeconómica do país é, certamente, um indicador importante para investidores externos e para quem procura mercados emergentes e outros que possam ser crescentemente relevantes. Neste contexto, não temos duvidas que o Senegal pode ser um destino importante para as empresas portuguesas, como destino de exportação ou de investimento. Para tanto as empresas portuguesas – que tradicionalmente não estão muito presentes no Senegal – deverão ousar ir além dos PALOP onde, por razões históricas, pela proximidade cultural e pela língua se sentem, naturalmente mais confortáveis e confiantes. Este caminho está a ser percorrido e nota-se que começa a haver um interesse crescente das empresas portuguesas pelo mercado senegalês, muito justificado, a meu ver. Importa ainda ter em atenção que em termos sociológicos existe no Senegal uma de classe média em crescimento, que tende a aumentar e qualificar o consumo o que pode também abrir o mercado a novos exportadores.
Para além da sua importância por si mesmo é ainda de ter em conta que o Senegal pode ser uma plataforma de acesso a outros países da região. Recorda-se que o Senegal está inserido em dois espaços: a CEDEAO e a UEMOA – o que garante às empresas aqui sedeadas um acesso facilitado a um mercado de cerca de 320 milhões de consumidores, estando ainda assegurado, através dos mecanismos da União Económica e Monetária, a estabilidade da taxa de câmbio da moeda (Franco CFA) e a sua convertibilidade, aspetos que não são de somenos para os investidores estrangeiros.

Estas alianças são importantes para os investidores claramente.
Sim, naturalmente, e também o facto de o Senegal beneficiar da situação de estabilidade política e de segurança, a que já nos referimos e que favorece os investimentos, o que, infelizmente, nem sempre se verifica – por diversos motivos – noutros países, nomeadamente, da região.

Qual a importância de um salão como o SENCON?
Quando visitei a SENCON verifiquei que só havia um país com mais expositores do que Portugal e esse país era… o Senegal. Estiveram presentes 17 empresas nacionais o que comprova a atenção com que estas começam a encarar este mercado e as oportunidades de negócio que se abrem, nomeadamente com a expansão do setor imobiliário/habitação e das obras públicas.
Sabemos que as empresas portuguesas dispõem de “know-how”, qualidade e capacidade de entrega de produtos e serviços e que têm “apenas” de ultrapassar a falta de conhecimento que têm sobre o mercado senegalês e da região da África Ocidental. Ultrapassado esse desconhecimento, importa afrontar os desafios, persistir perante as dificuldades iniciais e eventuais falhanços que possam ocorrer num espaço geográfico ao qual não estarão, porventura, tão habituadas, mas que tem um potencial indesmentível.
Que outras áreas, para além da construção, seriam interessantes para outras empresas nacionais investirem na África Oeste?
Tendo em conta a capacidade das empresas portuguesas, e as condições prevalecentes no Senegal, julgo que os setores do turismo e serviços conexos, transportes, educação e agroindústria são particularmente promissores a curto e médio prazo.

Como está a diáspora portuguesa no Senegal?
A diáspora portuguesa no Senegal vive bem e é bem-recebida. Tem uma história que lhe é própria, muito ligada, na sua origem, a Cabo Verde e à Guiné-Bissau. Temos cerca de 700 cidadãos nacionais inscritos na Secção Consular da Embaixada, uma grande maioria residente no Senegal há longos anos, mas nem por isso menos ligados afetivamente a Portugal e às nossas tradições e cultura.
Não sendo o Senegal um país “lusófono”, Portugal é ainda assim reconhecido e admirado. Em termos históricos não podemos esquecer que os primeiros europeus a chegar às costas do atual território senegalês foram portugueses, no século XV. A Ilha de Goré (ao largo de Dakar) antes de se chamar assim, foi designada como Ilha da Palma, nome dado pelos navegadores portugueses que ali aportaram em 1444. Ainda hoje no Senegal a toponímia nos surpreende, não pouco frequentemente, com nomes de origem portuguesa, ou outros onde esta origem está ainda presente (“Diass”, “Rufisque”, “Saly Portudal”).
O próprio Presidente Leopold Sedar Senghor referia que o seu nome era uma derivação da palavra “Senhor”. E num dos seus brilhantes poemas dizia “Mon sang portugais s’est perdu dans la mer de ma Négritude.”
Importa ainda referir a este propósito que no Senegal, a língua portuguesa foi inserida como língua de opção no Ensino Oficial senegalês na década de 60 e, desde essa altura, o português é uma opção no currículo escolar do Senegal. Neste momento cerca de 46.800 alunos estudam português no Senegal sendo acompanhados por cerca de 430 professores senegaleses de língua portuguesa.
Na Universidade Chiekh Anta Diop de Dakar – uma das mais antigas e prestigiadas Universidades em África – o “Curso de Estudos Portugueses” É frequentado por cerca de 1.600 alunos. E uma das maiores festas dos estudantes da Universidade é mesmo o dia da CPLP e da Língua Portuguesa que movimenta, todos os anos, milhares de alunos, num animado convívio.

 

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