Entrevista Professor José Horta, responsável pelo Centro de Lingua Portuguesa da Universidade de Dakar

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O português José Horta, de 63 anos, é professor no curso de estudos portugueses da Universidade de Dakar desde 2005 e formador de professores, através do Instituto Camões, no qual é o responsável pelo Centro de Língua Portuguesa.
Em 2017, José Horta foi condecorado Presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, com o grau de Comendador da Ordem do Mérito, numa cerimónia que decorreu na Embaixada de Portugal em Dakar.

Quantos alunos têm aqui na Universidade de Dakar a estudar português?
No Departamento onde estamos incluídos, das Humanidades, não sei, porque, por exemplo, em História são quase o dobro dos portugueses. Mas na parte do Português são cerca de 1.600 alunos a fazer o curso de Português.

E quando chegou ao Senegal quantos alunos tinha?
Em 2000 haveria, talvez, 300 alunos no total. A fazer o primeiro ano tinha 196 alunos. E há três anos, só no 1º ano havia mais de 1.000 alunos. Mas com a redução das quotas reduziram os alunos. E agora no 1º ano devem ser à volta de 600.

O que leva os alunos a quererem aprender a língua?
É essa a questão que nós continuamos a colocar. Por que é que Portugal é um país especial? O principal motivo é o de o presidente Senghor ter tido a inteligência de compreender que as línguas são importantes, para a economia e para tudo.
Eles aqui têm, para além do francês, que é a língua oficial, o inglês que começa no preparatório e vai até ao final do liceu. No que corresponde ao nosso 8º ano eles podem escolher seis línguas: português, espanhol (o maioritário), o italiano, o alemão, o russo e o árabe.
O português é a segunda língua mais escolhida, a seguir ao espanhol que foi instituído muito antes. E eu acho que se verificou o efeito de bola de neve, porque eles desenham a procura do espanhol como sendo muito maior do que realmente é. Sei que há liceus que querem professores de português e o ministério não preenche esses lugares. Há ainda o motivo de haver professores que captam os alunos para escolher o português em detrimento das outras cinco línguas. E o nosso trabalho é que os professores do liceu cativem os alunos para que decidam fazer português. E é aí que temos de batalhar.
Mas há ainda outros factores que nos favorecem, como a proximidade com a Guiné-Bissau e Cabo Verde. E os alunos escolhem a língua por razões afectivas, porque Portugal tem uma boa imagem aqui.

Os alunos do Senegal entendem bem o português?
O português do Brasil é muito mais fácil de entender do que o de Portugal. Porque é mais aberto e assim os alunos podem seguir muito mais facilmente as palestras e conferências.

O ensino do Português existe em outros sítios que não Dakar?
Hoje em dia todas as regiões têm Português. Em Ziguinchor, cidade principal de Casamansa, existem mais de 100 professores e cerca de um terço dos alunos de Português do Senegal. Já foi governado por Portugal, por isso é algo natural. Mas mesmo as regiões mais islamizadas durante muito tempo eram regiões com pouca gente a estudar e hoje em dia também têm muitos alunos.

E quantos alunos no total de Português há?
Nos liceus são no mínimo 46.200. Vejam aqui um artigo que saiu num jornal em 2013: havia 38.000. Em 50 anos, quando foi instituída pela primeira vez a língua portuguesa num liceu de Dakar, estavam apenas oito alunos. 52 anos depois, em 2013, eram 38.000.

E quantos professores?
São cerca de 440 professores de Português, no Senegal, entre liceus e universidades, talvez um pouco mais.

O professor coordena esse ensino do português em todo o Senegal?
Eu não coordeno porque não tenho essa missão em particular. Mas há um protocolo assinado entre o Instituto Camões e o Ministério da Educação que me dá a responsabilidade de fazer a formação contínua. Porque aqui não há recursos humanos nem financeiros para que a escola de formação de professores possa fazer essa formação contínua.

Há facilidade em aprender a língua?
Sim, há muita porque os senegaleses são multilingues e isso é uma grande vantagem. Eu tenho um colega professor de liceu que domina, como um nativo, sete línguas. Este é excepcional, mas é natural dominarem três, quatro línguas. Têm o uólofe que é a língua veicular, o francês que é a língua oficial, mas que já é menos utilizada que o uólofe. Depois aprendem o inglês e uma segunda língua estrangeira. E depois podem ainda ter um dialecto que aprenderam dos pais, que não o uólofe. E há dezenas de outros dialectos.
Portanto conhecem, às vezes, quatro ou cinco. E quem sabe várias línguas, facilmente aprende novas. Mas a aprendizagem é complicada pelas condições de trabalho deles que são muito difíceis. Os nossos alunos, que não são os de Medicina, muitas vezes vêm de zonas rurais onde não há meios.
Se aqui vierem em altura de exames os alunos estão debaixo dos candeeiros a estudar por não terem luzes noutro sítio – e isto emocionava bastante o nosso embaixador. Houve até uma altura em que eu tive de abrir a sala de Portugal porque aqui não havia mosquitos e podiam estudar. E muitos, em vez de irem para a discoteca, vinham para aqui estudar.

Há algum protocolo de intercâmbio estudantil?
O Instituto Camões tem bolsas que, durante muitos anos, até 2013/2015, eram atribuídas quer a professores quer a estudantes. Depois verificou-se que era raro os estudantes voltarem ao Senegal. E era um desperdício de cérebros, até porque eles em Portugal iam trabalhar em serviços, fazendo limpezas nos centros comerciais ou trabalhando na construção.
A partir de certa altura, o Instituto Camões decidiu atribuir bolsas quase exclusivamente a professores de liceu porque há a garantia de que regressam por aqui terem uma vida estável, família, ganham bem (para a média do Senegal), porque os professores são uma profissão muito conceituada, principalmente para quem está nas regiões do interior.
E daí que professores regressem quase sempre. Alguns alunos que dão garantias muito fortes de que querem voltar, às vezes, também recebem bolsas.

Há boas relações entre a faculdade e o Instituto Camões?
Sim, claro. O Instituto Camões não tem todos os recursos que gostaríamos que tivesse. A sala do Português já é muito pequena em relação ao que seria o nosso desejo e que são as nossas necessidades. Mas não há nenhuma língua dentro da universidade que dê o apoio que nós damos. Nós temos três bolsas, actualmente são 20 bolseiros que recebem uma bolsa que lhes permite juntar dinheiro para, por exemplo, um dia comprarem um computador.
Temos esta sala do Português, um centro em Ziguinchor, aulas de reforço e temos um financiamento razoável para fazer actividades, como o dia da CPLP, onde, o ano passado havia pelo menos 2.000 pessoas a assistir e um almoço para 1.000 pessoas.
E é tudo feito pelos nossos alunos que integram grupos de dança e de canto e que cantam coisas de Moçambique, Guiné, Angola, Cabo Verde… E mostram coisas desses países como danças, cantos, poemas… E essa é a nossa grande festa. E temos o 10 de Junho, o 25 de Abril, o dia do Livro…
E o Instituto Camões permite-nos isso, renovando as coisas que se deterioram e manter a sala aberta e, ao mesmo tempo fazendo estas actividades. E a embaixada é também muito importante nestas acções.

E ajudam também na formação de professores?
Sim, sim. Isso é o mais dispendioso, porque são mais de 400 professores, dispersos pelo país e temos de ir ter até todos, dar a formação, pagar o almoço a esses mesmos professores, levar material para eles terem condições… E é a formação de professores que nos pode trazer mais alunos. Porque se houver bons professores, eles vão certamente cativar os miúdos e os alunos.

E como se faz essa cativação?
Nós às vezes fazemos concursos com miúdos que nunca ouviram português, mas com a aproximação da língua que falam com a nossa, conseguem entender algumas coisas, mesmo nunca tendo ouvido a língua.

O Presidente Marcelo visitou a universidade quando veio ao Senegal?
Sim, recebeu o doutoramento honoris causa e, como ele é muito dado, esteve aqui a tirar fotografias, as selfies… Eu fui o último a conseguir conhecê-lo porque ele tirou tempo para responder a todos os pedidos. Tive de dizer ao embaixador: “Eu ainda não consegui cumprimentar o nosso presidente”. E há aí um colega de Espanhol, que tem no gabinete a fotografia abraçado ao professor Marcelo, que não é o presidente dele nem da língua que ele ensina, levou-me até ao presidente.
E eu gosto muito dessa capacidade que os portugueses têm de encantar os outros. Gosto de ver miúdos com t-shirts feitas nos clubes de português com o slogan que escolhemos: “Eu falo português”. Ainda no outro dia passou aí um miúdo que tinha uma t-shirt a dizer “Eu aprendo português”.

 

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