Pangeia, Hoje

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Mário Máximo
Escritor e Gestor de Assuntos da Lusofonia

 

Segundo os especialistas da geologia, nos tempos idos da Pangeia, os continentes estavam totalmente integrados, em termos de território e, por isso, eram apenas um só continente. Ou melhor, uma só ilha. Pois acontece que se estavam juntos, numa só massa territorial, à volta havia um imenso oceano e, por isso, tão grande sendo o território desse único continente…era, afinal, uma ilha.
Não deixa de ser curioso pensar que seria possível chegar a todos os lugares caminhando sem precisar de naus, nem de travessias complexas sujeitas a tempestades inclementes. Nessa altura, se foi mesmo altura, não seria muito fácil escrever-se uma História Trágico-Marítima. Mas poder-se-ia escrever uma História Trágico-Terrestre. Não seria por não haver mar a navegar em busca de terras desconhecidas que deixaria de haver histórias trágicas a contar aos vindouros.
Mas… e há sempre um mas, se Pangeia existiu não seria por isso que não haveria embarcações. O mar estaria sempre à volta e, claro, o engenho da humanidade então existente acabaria por criar modos de se aproximar de outras costas mais acima ou mais abaixo (toda a pangeia seria uma costa aparentemente infinita…). A humanidade de então haveria de pensar que muito mais acima ou muito mais abaixo algo haveria de diferente, quer na aparência dos lugares, quer na aparência e nos costumes das gentes. E lá voltaríamos à Historia Trágico-Marítima.


E enquanto as mulheres e os homens de então não percebessem que a Terra era mesmo redonda julgariam que, seguindo em frente pelas águas marítimas, conseguiriam encontrar sempre mais terra. Enfim, talvez assim acontecessem as viagens de circum-navegação na Pangeia. Viagens que comprovassem que a Terra era mesmo redonda. E que partindo duma dada praia seria possível chegar à mesma praia continuando a navegar. Neste caso seria à volta do território constituído pela Pangeia. Atravessando a pé (de cavalo, de elefante ou de camelo) também se poderia concluir que num dado ponto deixaria de haver terra e começaria o mar. Com um pouco de engenho acabaria por se perceber que entrando pelo mar dentro nesse ponto, acabaria por se chegar ao ponto terrestre de onde se tinha partido… a pé (de cavalo, de elefante… ou de camelo).
Toda esta minha divagação creio que confirma (perdoem-me a ousadia!) que a relatividade é um conceito genial lançado por Albert Einstein. Eu estou aqui a comprovar a teoria da relatividade! Em cada tempo do tempo, em cada era, os mesmos conceitos adaptam-se aos sonhos recorrentes de mulheres e homens, enquanto indivíduos em si (no mais pequeno, o mais absoluto e portanto o maior) e enquanto simples parte de uma comunidade imensa (no maior, a mais ínfima parte).


Todavia poderá perguntar o caro leitor: que sentido faz esta crónica se sabemos que a Humanidade se distribui por cinco continentes e que há oceanos (pelo menos cinco!) à volta desses continentes. Vivemos numa era em que construir cenários é importante. E eu posso afirmar, como afirmam os defensores da existência da Pangeia, que se existiu mesmo esse monocontinente o que hoje é o território de África estaria colado ao da América do Sul. E o território da Europa estaria colado à América do Norte. E talvez nem África se chamasse África, nem a Europa se chamasse Europa, nem a América tivesse o nome de América. Talvez não.


Mas estou certo de que haveria potentados. Impérios. Calamidades. Escravaturas. Atrocidades. Injustiças. E as mulheres e os homens procurariam olhar os céus, invocando deuses na busca de um bálsamo que atenuasse as suas dúvidas e, sobretudo, os seus sofrimentos.
Falaria a poesia de navegações? Haveria descobrimentos e epopeias? O conceito de liberdade iluminaria os corações? Haveria esperança e religiões? Sim, eu creio que tudo isso haveria. Porque os constituintes da Humanidade, isto é, os homens e as mulheres, nunca perderiam a sua essência, mesmo se o seu mundo na Terra não estivesse dividido em cinco continentes e cinco oceanos.
Alguém me diz ao ouvido que na era de Pangeia a Humanidade ainda não existia. E que, portanto, não havia nem mulheres nem homens. Pois não. Mas aqui, nesta crónica, utilizo Pangeia como metáfora. Talvez para concluir que hoje os seres de espírito e coração iluminados sabem que só existe uma única raça: a raça humana! Essa é a Pangeia que existe. Diversos continentes mas uma só Humanidade!

 

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