Macau: O Tempo da História… do Futuro!

by • • • Comments (0)

Mário Máximo
Escritor e Gestor de Assuntos da Lusofonia

 

Macau é um daqueles lugares especiais onde a história tem muito que contar e muito que apreciar. Território pertencente à China, funcionava como uma porta de entrada para o oriente: nomeadamente a China mas também o Japão. Os portugueses, nas suas navegações (que uniam territórios que se encontravam separados porque, simplesmente, não se conheciam), lá chegaram em 1557. Instalaram-se e junto à foz do rio das Pérolas foram construindo um entreposto comercial, devidamente edificado, que mostrou capacidade para propiciar diálogo entre a Europa e os orientes (China e Japão).
A concorrência de Hong Kong (tomada pelos ingleses) criou algumas dificuldades ao entreposto de Macau e gerou uma prolongada época de declínio. Todavia, em 1887, a China veio a reconhecer a soberania e ocupação perpétua de Portugal relativamente a Macau. Aconteceu a celebração de um tratado de amizade e comércio sino-português.
A Pataca (notas), veio a tornar-se a moeda oficial de Macau em 1901. Notas emitidas pelo Banco Nacional Ultramarino em 1901. Só em 1995 a emissão de notas veio a ser permitida também ao Banco da China.
No entanto, nada na história é perpétuo. E a soberania e ocupação perpétua de Macau por Portugal acabou por se tornar limitada no tempo. Alguns motins aconteceram em 1966, numa altura em que o império português perdera quase toda a sua vitalidade. Tais motins levaram a que Portugal acabasse por ceder. Foi já em 1987, após muitas negociações, que o governo português aceitou passar a soberania de Macau para os chineses em 1999, vindo a tornar-se uma região administrativa especial.

Luís Vaz de Camões passou por Macau. Consta-se que terá assumido as estranhas funções de Provedor dos Defuntos. E também se consta que a empresa não lhe terá corrido da melhor maneira. E que até foi alvo de um processo na justiça portuguesa. Mas o mais importante é que terá sido em Macau que se deu por amores com a oriental Dinamene. Um amor único por tão extraordinário. Um amor que evocou nos seus versos. Um amor que não sabemos se foi real ou apenas lendário. Mas não foi o amor de Camões por Dinamene a única lenda a ficar para a história. Nasceu, também, a lenda da Gruta de Camões. Gruta onde teria escrito uma parte significativa das suas estrofes epopeicas. Hoje, existe uma espécie de monumento que evoca essa gruta camoniana. Quanto a Dinamene, que terá morrido na foz do rio Mekong, ao naufragar uma nau onde seguia com Luís de Camões (nau de onde este se terá salvo a nado trazendo numa das mãos os manuscritos de Os Lusíadas…). Aliás, com essa perda amorosa terá naufragado a última hipótese do vate maior da língua portuguesa ser feliz no amor.

Outras personalidades da língua portuguesa tiveram Macau como sua estação relevante de vida: Venceslau de Morais e Camilo Pessanha. Venceslau de Morais nasceu em Portugal, no ano de 1854, e veio a morrer no Japão, em Tokushima. Viveu em Macau, onde casou com Vang-lo-chan e teve dois filhos. Mas uma viagem diplomática ao Japão, onde conheceu o imperador Meiji, tudo mudou. Mas não foi só por causa do imperador: ele veio a conhecer também duas japonesas (Ó-Yoné-Fukumoto e Ko-Haru). Abandonou a sua mulher chinesa e respetivos filhos assumindo relacionamento com as duas japonesas. Não terá voltado a Macau. Deixo a estrofe final de um belo poema de Venceslau de Morais, o poema ‘Aqui’, incluído no livro ‘O Profeta do Orvalho’.
“…Vê como eu morro devagar/ enquanto a chuva desenha na poeira
as metáforas do Outono e do assombro./Vê como eu apodreço à ilharga da música
que sai do interior das conchas/ junto à rebentação das ondas,
no sítio onde os poetas há muito/ deixaram de escrever e de sonhar.
Vê como eu me torno estrangeiro absoluto/ numa terra que quer ser minha
mas que eu não consigo guardar no coração/ como coisa essencial da minha vida”

Camilo Pessanha nasce em 1867 e virá a falecer em Macau no ano de 1926. É considerado a referência maior do simbolismo português. Teve uma vida familiar delicada. Licenciou-se em Direito e ganhou um concurso para ir lecionar filosofia em Macau. Teve participação nas revistas ‘Orfeu’ e ‘Centauro’. O seu único livro publicado é o celebrado ‘Clepsidra’.
Conheceu e travou relacionamento e amizade, em Macau, com Venceslau de Morais. Transcrevo um notável soneto de Camilo Pessanha, soneto cujo título é “Floriram por engano as rosas bravas”:
“Floriram por engano as rosas bravas
No Inverno: veio o vento desfolhá-las…
Em que cismas, meu bem? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?
Castelos doidos! Tão cedo caístes!…
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que num momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!
E sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos…
Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze — quanta flor! — do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?”

Hoje, Macau é, para os portugueses, um lugar por onde a história passou através das navegações. Um lugar onde os mitos e as lendas, foram substituídos pela realidade fria dos tempos atuais. A realidade da política real e dos negócios. Mas, caberá perguntar: não foram a política real e os negócios, sempre, a razão da ligação de Portugal e dos portugueses a Macau?
Creio que se abrem excelentes perspetivas para que os negócios floresçam. Negócios entre portugueses e chineses e entre outros empresários e profissionais de diversas proveniências que escolheram Macau como entreposto privilegiado. Espero e desejo que a língua portuguesa seja tratada com a consideração e o carinho que merece e exige. Pelos portugueses…e pelos chineses. Para Macau, será o tempo de escrever a história do futuro!

 

Pin It

Artigos Relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *