Entrevista a Pedro António Costa

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A centenária marca de retalho de luxo confunde-se com a história de Lisboa. Ao longo dos anos consolidou-se como uma referência neste segmento em Portugal e já deu passos para o estrangeiro. Numa deliciosa conversa com o filho de um dos fundadores da Loja das meias, Pedro António Costa revela-nos um pouco da história e do segredo do sucesso desta incontornável referencia na moda de luxo nacional.

Pode contar-nos um pouco sobre a sua visão histórica da Loja das Meias?
Eu já não sou novo mas não tenho tantos anos como a Loja das meias. A Loja começou com o meu avô que tem uma história de muito trabalho. Ficou órfão, chegou à Lisboa vindo de Alhos Vedros para trabalhar e estudar. Como não tinha dinheiro empregou-se numa loja chamada Loja das Meias. Depois matriculou-se numa escola de comércio que ficava na Rua das Chagas. Isso numa altura em que começaram a deitar abaixo as grades do Jardim Público que hoje é a Avenida da Liberdade.
Uma curiosidade desta altura é que os ritmos do comércio eram diferentes, o comércio abria entre as 8h30 e as 9h00 da manhã e só fechava às dez da noite e isso todos os dias da semana incluindo o sábado e o domingo.
Passado uns anos e já como proprietário do estabelecimento, o meu avô levava para as viagens de compras o meu pai e o meu tio Horácio. Isto acabou por lhes incutir o gosto pelas marcas, pelas roupas, pela moda, pelo comércio em si. E depois nasci eu… Obviamente continuei o trabalho da minha família.
Com o passar dos anos percebemos que a Loja apesar de muito bonita tinha uma envolvência que não condizia na altura, com o conteúdo do estabelecimento. Mudamos de loja e percebemos que Lisboa estava a expandir. Então em 1972 viemos para a Rua Castilho mas sempre a pensar em expandir para os arredores. E depois os meus filhos vieram trabalhar comigo.

Podemos dizer que a Loja das Meias está no vosso ADN.
Tenho três filhos, o Pedro Miguel a Manuela e a Marina. Sempre lhes dei liberdade de escolha, mas eles é que quiseram vir trabalhar comigo. Eu aprendi que um pai tem que os deixar desenvolver ideias e até mesmo deixar fazerem asneiras para aprenderem com elas. Graças a Deus estas asneiras não tem sido muitas. Nesta altura, com a expansão de Lisboa nós andávamos à procura de um novo espaço nos arredores e foi quando adquirimos o espaço que seria a futura loja de Cascais.

Hoje em dia o nome Loja das Meias remete-nos para palavras como luxo, sofisticação, griffes, tradição e história. Sente que enquanto marca portuguesa alcançou um patamar que poucas marcas portuguesas conseguiram?
Seguramente e com muito orgulho posso afirmar que sim.

Para além de figuras proeminentes da nossa sociedade, quem é o cliente da Loja das Meias?
Para além dos clientes portugueses nós somos muito conhecidos no Brasil por exemplo. Temos muitos e bons clientes brasileiros. Temos muitos clientes nos PALOP, muitos clientes de toda a Europa com destaque para os ingleses e franceses. Felizmente temos uma clientela fiel e sólida, estes que mencionei são apenas uma amostra.

Ainda a falar sobre os clientes, nós sabemos que as grifes internacionais que a Loja das Meias vende são representativas do universo do mercado de luxo. Ao longo destes anos que personalidades a Loja das Meias pode dizer que tem como clientes?
Posso dizer que o nosso presidente da República é um amigo e um cliente de há muitos anos, por exemplo. Nós temos um livro de ouro desde a altura da segunda guerra onde todas as personalidades que passaram aqui assinaram este livro, que não deixa de ser uma peça histórica. Temos clientes de grande importância, mas afirmo que todos os clientes são importantes.

A abertura da Loja na Avenida da Liberdade em Lisboa deixa-vos portanto numa posição cosmopolita. Foi uma questão de posicionamento ou uma condição sine qua non?
Tratou-se de uma decisão de manutenção de posicionamento. As grandes marcas querem estar na Avenida da Liberdade. Algumas das grandes marcas com as quais trabalhamos estão niveladas com as outras marcas presentes na avenida. Posso dizer que na última festa que fizemos na loja da Avenida da Liberdade, acabamos por vender mais a clientes portugueses do que a estrangeiros. Cerca de 80% das vendas deste dia foram os portugueses que compraram, o que me deixou muito satisfeito. O que eu quero é fidelizar o cliente português e estar na Avenida da Liberdade foi uma decisão estratégica. No entanto não posso deixar de destacar que este facto traz muitas nacionalidades que compram connosco. Há alguns anos eram os russos, que desaparecerem por um tempo e agora já estão a voltar, os franceses e os britânicos são mais fiéis e depois veio a vaga de angolanos e brasileiros, estes ainda a manterem-se de forma equilibrada, mas não posso deixar de dar o destaque aos clientes chineses que estão a ser em número considerável e tem crescido de ano para ano. Quando os clientes chineses compram, compram a sério.

Fale-nos um pouco da abertura da loja em Moçambique.
Nós tivemos uma aventura em Angola há alguns anos. Foi muito saudável e tudo o que chegava à loja vendia-se. Obviamente surgiu-nos este desejo de estar mais presentes em África e o mercado moçambicano também é apetecível. A loja de Moçambique está lindíssima e acredito que revolucionou este mercado em Maputo, sem contar que o povo de Moçambique tem uma forma de estar tão agradável que é mesmo um gosto para nós podermos ter lá uma loja.

Há horizontes para o processo de internacionalização da Loja das Meias, pelo menos no mercado lusófono?
Hoje em dia existe uma coisa que é o e-commerce. Estamos a entrar na Farfetch. Sou um homem de negócios e o e-commerce é um “must be” para acompanhar a velocidade que o mercado exige. Pessoalmente eu não gosto do e-commerce pois mesmo estando as compras à distancia de um clic há algo que foge ao espírito da nossa empresa, que é o atendimento personalizado, o receber, o encantar e o fidelizar os clientes. Só mesmo estando presencialmente na loja eles podem sentir esta experiência.

 

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