Entrevista a Adelino Costa Matos

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Com uma atitude jovem e com um pensamento empresarial refrescante, Adelino Costa Matos, actual presidente da Anje – Associação Nacional de Jovens Empresários, representa uma nova geração de empresários que tem como base a inspiração nas pessoas e no capital humano.
Fez o seu percurso académico na área de engenharia e só mais tarde acabou por descobrir a verdadeira vocação. Mudou de curso a meio do caminho, e passou a frequentar o curso de gestão, envolvendo-se cada vez mais nos negocios da familia até traçar o seu próprio caminho dentro da empresa, apontando para a área de energias renováveis, liderando neste momento esta área de negócios com enfase no sector da metalomecânica.

De que modo a indústria se deve adaptar e tornar-se mais flexivel à nova realidade do empreendedorismo?
Esta pergunta vem de encontro a algumas ideias que trago de um almoço onde estive ontem com 40 empresários históricos do nosso tecido empresarial e industrial. Neste almoço estava presente o empresário Elidio Pinho, que fez uma afirmação da qual também partilho da mesma opinião: As pessoas tem que compreender o dia de hoje e a actualidade empresarial no contexto em que ela existe. As coisas hoje em dia são feitas para o minuto em que estamos a trabalhá-las.
A realidade empresarial hoje é completamente diferente de algumas décadas atrás e a capacidade de resposta imediata faz toda a diferença, daí a importancia da interligação entre o empreendedorismo, esta nova mentalidade e esta nova tendência empresarial que pode proporcionar à indústria uma visão muito crítica e dinâmica proporcionada por esta nova geração de empreendedores.

Acaba de completar um ano na presidencia da direcção da ANJE, que balanço é que faz desde então?
Faço um balanço bastante positivo. Foi um ano desafiante e poder conciliar a gestão da minha empresa com a gestão da ANJE é um privilégio, do qual posso dizer que quando fazemos o que gostamos não vemos obstáculos para superar estes desafios.
Foi um ano bastante útil para conhecer bem a instituição e os seus processos. Em termos de mandato, este primeiro ano foi um ano de lançar bases para novos desafios internamente, tentando criar um espaço mais dinâmico. Estamos numa fase em que temos que buscar o foco de jovens empresários e gerar bastante conhecimento para proporcionar grandes iniciativas nestes dois anos seguintes de mandato.

De que forma vê o crescimento do empreendedorismo em Portugal?
Eu vi o crescimento do empreendedorismo em Portugal nos últimos cinco anos de forma fantástica. Penso que já demos passos grandes e bastante assertivos que se traduzem num contexto empresarial muito mais dinâmico que no passado. Apoiar as startups e fazer a interligação ao ensino, à formação e às iniciativas de negócio têm sido focos prioritários da ANJE.

Como vê as apostas governativas para esta área?
Em quase todas as iniciativas empresariais temos que pensar a estratégia a longo prazo e executar a curto prazo. Nesse sentido não devemos pensar em ciclos governativos mas sim pensar em estratégias para que estas startups possam pegar no conhecimento e transformar em negócio.
Sendo Portugal um país de base industrial penso que temos que ser pragmáticos e pensar nas startups como algo estrutural para o tecido empresarial daqui a dez ou quinze anos. É importante ligar o empreendedorismo de uma forma transversal.

Com o background que tem, como analiza o processo de transformação e internacionalização de startups em scaleups?
O “ecosistema” empresarial ainda tem uma falta de mecanismos para que isto aconteça de uma forma mais regular e sustentavel. Para garantir que uma startup passe a ser uma scaleup é necessário um sistema de apoio para garantir que estas startups tenham estabilidade e conhecimento para passar a ser uma scaleup.
Neste sentido a ANJE tem tentado juntar investidores a esta equação porque o mercado nacional em termos de investimento ainda é relativamente curto e por outro lado o processo de passagem de um ponto a outro deve ter bases de conhecimento.
Neste sentido a ANJE tem programas para ajudar estas diferentes fases de crescimento, onde trabalhamos em determinadas áreas de actuação para estruturar estas scaleups e prepara-las para um crescimento acelerado, dotando-as de estruturas tecnológicas, de recursos humanos, de marketing e financeiras entre outras áreas fundamentais para garantir e manter o sucesso destas empresas. Quanto mais apoio estas empresas tiverem mais garantias de sucesso elas terão.
Neste ponto o papel da ANJE é ajudar estes empresários durante estes processos numa aposta clara de as fazer sobreviver no ecosistema empresarial e de mercado.

Quais as sinergias que vê na entrada de Ana Lehmann na Secretaria de Estado da Industria?
Eu acho que tal como já referi no passado, estivemos numa transição onde o João Vasconcelos imprimiu uma dinâmica muito grande ao sector  com um outro olhar e um papel crucial e positivo no que toca à importancia do sector.
Relativamente a Ana Lehmann fico muito satisfeito pois é uma pessoa sensata e extremamente inteligente com um background  de largos anos ligados à industria e à captação de investimento estrangeiro, quando esteve na Invest Porto.
É uma pessoa de terreno como o seu antecessor e manteve a aposta na área do empreendedorismo, portanto, com ela, estão reunidas todas as condições para que se mantenha este foco no empreendedorismo.

No seguimento das declarações que já tem vindo a dar, que estratégias podem ser aplicadas para valorizar e atrair capital humano para a industria?
Primeiro temos que desmistificar um pouco a industria. Como eu costumo dizer, hoje é muito mais “sexy” os jovens estarem interligados às startups e às novas tecnologias e olham para a industria como o “patinho feio” do ecossistema e do meio empresarial.
Eu acho que isto se faz com exemplos, posso dizer que, por estar a liderar uma indústria de metalomecânica, gostaria de dar um exemplo de gestão de crescimento acelerado, de dinâmica e novas ideias e penso que deviamos efectivar campanhas para aproximar estes jovens emprendedores à industria.
Por outro lado, o capital humano sofreu um desfalque no nosso país há dez anos com a crise. Os jovens de hoje em dia, os chamados millennials têm um pensamento empresarial bastante distinto. Tanto podem estar ligados a um projecto hoje como podem abraçar outros desafios e correr o mundo. Esta geração busca qualidade de vida, qualidade de trabalho, motivação e progressão de carreira.
O que não pode acontecer é o país continuar a oferecer salários aquém daquilo que integra estes presupostos. Desta forma não será possivel atrair este capital humano, tendo ainda em conta que a fiscalidade penaliza de alguma forma estes salários e torna-nos pouco competitivos a nivel de capital humano.
Esta mudança de mentalidade influencia o contexto empresarial e a perspectiva de captação de capital humano. Temos que tornar este sector mais interessante mudando o mindset de que somos pequeninos.
Neste ponto ainda temos muito a aprender e quando forem criadas estas condições, o capital humano que saiu de Portugal a dez anos atrás pode voltar a olhar com o país com outros olhos e quem sabe regressar para ajudar a construir o tecido empresarial das próximas décadas.

Como vê este tecido empresarial, com foco no capital humano, agora e daqui a cinco anos, por exemplo?
Claramente temos uma falta de recursos muito dificil de gerir. Não podemos querer investimento nacional e estrangeiro, aprovar projectos 2020 de milhares de euros na indústria e depois não termos pessoas para trabalhar. Temos áreas em que não há qualificação e outras àreas em que de facto não há pessoas para trabalhar. Prefiro não projectar os proximos cinco anos mas sim lançar um desafios para o que deve ser feito nos próximos cinco anos.
Tem que existir uma clara aposta do ensino direccionado à componente profissionalizante para o país industrial que somos. É preciso criar e apostar num contexto empresarial nacional vocacionado para a indústria, apostar na digitalização da economia e da industria, formar operadores para que a industria se modernize, por exemplo.
Temos a possibilidade de criar as bases para que isto aconteça e ver a preponderancia  da industria no nosso país a crescer em vez de diminuir e criar condições para que a industria possa colaborar de forma mais pujante com o PIB nacional. Para isso é preciso criar bases e condições que nos permitam ter uma visão e uma acção estratégica para daqui a dez anos ou vinte anos.

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