O Auto da Floripes

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São Tomé e Príncipe é um arquipélago muito especial. Estar na ilha de S. Tomé ou na Ilha do Príncipe é uma experiência única. Foi esse o privilégio que eu tive em 2009. Decorria o mês de agosto e pude apanhar as festas em honra de S. Lourenço ou o Auto de Floripes. O dia 15 de agosto é o dia de S. Lourenço e é nesse dia que o Auto de Floripes é celebrado na Ilha do Príncipe. Trata-se de uma festa popular com raízes em Viana do Castelo (há mais de duzentos e cinquenta anos), mais precisamente no Lugar das Neves. Através de um fenómeno de aculturação tornou-se uma celebração assumida pelo povo da Ilha do Príncipe. Um fenómeno que levou a alterações estéticas profundas relativamente ao auto exibido no Lugar das Neves.

O enredo do Auto de Floripes tem o seu núcleo principal numa querela entre o exército do Imperador Carlos Magno e um exército turco de origem desconhecida. Como personagens principais emerge o cavaleiro cristão Oliveiros e o Rei de Alexandria, Ferrabrás. No início, a vitória pertence a Oliveiros mas logo depois vem a ser preso numa emboscada do exército turco. Durante a ação teatral vão decorrendo diversas embaixadas para que as divergências acabem por se resolver. Até que surge Floripes, filha do Rei turco (Almirante Balaão) que, caída por amores por um certo cavaleiro cristão,vem a trair o pai e, enfeitiçando o carcereiro, solta os prisioneiros e casa com Oliveiros. Desenrola-se, ainda, uma batalha onde os cristãos vencem os turcos mas estes vêm a ser libertados após aceitarem a conversão. Tudo acaba numa festa imensa e numa dança de apoteose.

Enfim, um espetáculo único quer no Lugar das Neves, quer na Ilha do Príncipe. O Auto de Floripes, numa delegação vinda diretamente da ilha do Príncipe, esteve em Portugal na Expo 98 e em maio de 2009 (nesta segunda vez a meu convite, para estar no Centro Cultural Malaposta). Se em Portugal as Delegações oriundas da Ilha do Príncipe criaram espetáculo e emoção com a exibição do também chamado Auto de S. Lourenço, na Ilha do Príncipe tudo é muito mais intenso; pois que todo um povo sai à rua para participar numa festa grandiosa que sente como sua mesmo não sabendo explicar bem o porquê. Diga-se que na Ilha de S. Tomé existe espetáculo semelhante, denominado “Tchiloli” ou “A Tragédia do Marquês de Mântua e do Príncipe Carlos Magno”.

Com esta pequena descrição quis sublinhar a riqueza cultural do arquipélago de S. Tomé e Príncipe. Um território que mesmo juntando as duas ilhas que o compõem é, territorialmente, de pequenas dimensões e tem uma população de cerca de 200.000 habitantes (na Ilha do Príncipe são apenas cerca de 6.000). Uma palavra especial para o Presidente do Governo Regional da ilha do Príncipe, Engº. José Cardoso Cassandra. Um homem de cultura e um político com muito sentido de estado e de defesa dos interesses do seu povo. Pude privar com ele em diversas situações, todas elas muito gratificantes.

Tomé e Príncipe está em busca de um caminho sólido para o seu futuro. São muitas as individualidades de alta relevância que podemos salientar. Marcelo da Veiga, Alda do Espírito Santo, Manuela Margarido (escritores que já não estão entre nós); ou Inocência Mata e Maria das Neves mulheres da academia e da vida pública nacional e internacional. Atingiram, de modo reiteradamente reconhecido, níveis de excelência no seu labor.

Refira-se que Maria das Neves (que foi Ministra e Chefe de Governo de S. Tomé e Príncipe) doutorou-se, recentemente, na Universidade Nova de Lisboa, apresentando um trabalho muito judicioso e elaborado acerca do que pode vir a ser uma estratégia de desenvolvimento para o seu país. O título da tese é o que segue: “São Tomé e Príncipe Como Um Gateway Regional”. Trata-se de uma abordagem que cria um enfoque na internacionalização orientada e sustentável da economia de S. Tomé e Príncipe.

Termino esta crónica enviando um abraço muito especial a todas as minhas amigas e amigos oriundos de São Tomé e Príncipe. São pessoas que guardo no coração pela sua qualidade humana e pela excelência da sua cidadania!

Mário Máximo
Escritor e Gestor de Assuntos da Lusofonia

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