Entrevista a Karima Benyaich . Embaixadora do Reino de Marrocos em Portugal

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DM – Que balanço faz destes quase 10 anos em Portugal?

KB – No decorrer da última década, posso destacar que as relações entre Portugal e Marrocos conheceram um desenvolvimento extraordinário e obtiveram resultados que qualificarei de naturais, o apogeu destas relações, é apenas o resultado da vontade comum expressa na Cimeira de Estado de Alto Nível  dos dois países vizinhos que partilham, mais do que a história ; uma visão sobre os desafios do futuro e as oportunidades que poderão em conjunto ser aproveitadas pelos nossos dois países e respectivos operadores privados e institucionais e cuja 13ª edição se realizou em Rabat nos dias 5 e 6 de Dezembro de 2017.
A visita a Marrocos, em Junho de 2016, de Sua Excelência o Presidente da República portuguêsa, Prof. Dr. Marcelo Rebelo de Sousa, a primeira de um Chefe de Estado português depois de 18 anos, veio imprimir um crescimento mais forte ao desenvolvimento das relações estratégicas que unem os dois países.
Como sabe, a excelência das relações politicas estabeleceu uma base sólida para uma cooperação bilateral pragmática. Direi, que aquando da minha chegada a Lisboa, as prioridades eram claras. Era necessário traduzir em factos a vontade das mais altas autoridades  marroquinas e portuguêsas nessas relações. Foi por isso que me fixei em dar prioridade a quatro objectivos fundamentais: dar mais visibilidade a estas relações criando laços entre as entidades institucionais, municipalidades, universidades, think-thanks etc… dos dois países, o reforço da cooperação económica e comercial entre os nossos dois países, mas também um melhor conhecimento entre os nossos dois povos através de uma promoção cultural e de uma valorização do nosso património histórico comum e intercâmbio entre as duas sociedades civis e por fim uma melhor integração da comunidade marroquina em Portugal.
Hoje, os números falam por si, no plano económico e comercial, o volume das trocas comerciais registou um aumento notável passando de 280 milhões de Euros em 2009 a perto de mil milhões em 2017. Também, o número de empresas portuguêsas que exportam para Marrocos está a aumentar constantemente passando de 987 em 2009 para 1303 em 2017. Marrocos é actualmente o primeiro parceiro de Portugal no Mundo árabe e o segundo em Africa, a seguir a Angola.
Isto foi possível, graças a uma dinâmica de visibilidade em todas as grandes manifestações organizadas em Portugal e a um trabalho de promoção económica do potencial e do destino Marrocos, como destino de investimento e produção e como mercado de exportação.
Hoje, o meu país suscita um grande interesse por parte dos investidores portuguêses que  actualmente estão presentes em Marrocos e que passaram de 30 em 2008 a 300 empresas implantadas em diferentes sectores, nomeadamente na indústria automóvel, na construção, na cortiça, na indústria farmacêutica, no agroalimentar, no têxtil, na hotelaria etc…
O nível dos investimentos directos portuguêses em Marrocos registou um aumento significativo no decorrer dos últimos dez anos, saliento particularmente dois grandes investimentos, o da sociedade Simoldes, no sector automóvel e o do Grupo Sana, na hotelaria, respectivamente por 60 milhões de Euros para o primeiro e 90 milhões de Euros para o segundo. As perspectivas neste sentido, inscrevem-se na via de uma parceria que se quer estratégica em proveito de uma relação orientada para uma melhor exploração das potencialidades económicas que existem nos dois países.
Entre os principais projectos de parceria lançados no decorrer desta década, figura a interconexão eléctrica, com uma capacidade de mais ou menos 1.000 megawats, e que constitui uma étapa importante para o desenvolvimento de uma parceria alargada no sector da energia, traduzindo uma vontade comum em construir um “hub energético regional”. Um tal projecto, citado a título de exemplo, tem também, uma vez que entre na sua fase de realização, uma forte capacidade de treinamento de indústrias subsidiárias. De facto, essa dinâmica constata-se, no sector automóvel ou no da hotelaria.
A nível cultural e humano, os intercâmbios e a cooperação demonstraram ser cada vez mais intensos. O povo português continua a descobrir as potencialidades de Marrocos e os grandes projectos lançados pelo nosso país sob a conduta de Sua Majestade o Rei Mohammed VI, assim como os marroquinos são cada vez mais numerosos a descobrir e a investir em Portugal.
Residem aqui, as razões profundas que convenceram mais de 80.000 turistas portuguêses a escolher Marrocos para as suas férias em 2017, fazendo do destino Marrocos um dos primeiros destinos turisticos fora da UE.
Esta notável evolução registada a nível económico tornou-se possível, igualmente, graças ao aumento das ligações aéreas regulares que passaram de 10 a mais de 38 em 10 anos, para diferentes cidades marroquinas, tais como Casablanca, Fez, Tânger e Marrakech efectuadas pela Royal Air Maroc  e pela TAP e ás quais se acrescentam durante o período estival vôos charter num total de 90 (para Saidia e Agadir).
Termino esta minha resposta, observando que, tendo em conta a importância da cooperação descentralizada no acompanhamento e na aproximação entre os povos, foi dado um especial ênfase ao papel das cidades para que a parceria estratégica entre os nossos dois países seja um modelo de crescimento partilhado com mais de 15 acordos de geminação assinados entre colectividades marroquinas e portuguêsas no decorrer dos 10 últimos anos.
A cultura, o desporto, os intercâmbios universitários foram desenvolvidos através de Parcerais inovadoras. Hoje, os nossos dois países dispõem de um quadro destinado a promover a dinâmica de cooperação em matéria de ensino superior e de investigação cientifica a través da realização da Cimeira dos Presidentes das Universidades e da assinatura de numerosos acordos entre universidades portuguêsas e marroquinas.

DM – Que semelhanças, económicas e culturais, encontrou entre os dois países?

KB – Sem entrar em detalhes, direi que os nossos dois países para além das suas similitudes culturais que permitiram a cada um, através desta história comum, de se enriquecer um ao outro, são dois países complementares que tudo aproxima. Quando cheguei a Portugal, fiquei maravilhada por encontrar muitas semelhanças entre os nossos dois países, sobretudo em matéria cultural, arquitectónica e de comportamento, a tal ponto que não me senti nunca uma estrangeira. O povo português é tão hospitaleiro quanto o povo marroquino. Em 9 anos nunca me senti desenraizada, graças ao acolhimento que me foi dispensado por todas as pessoas com quem tive o prazer e a honra de me cruzar.
Estas semelhanças reflectem essa herança comum e a amizade profunda que existem entre os nossos dois países. O dialecto marroquino conserva várias palavras portuguêsas, e vestígios na costa atlântica, um oceano com o qual partilhamos as costas, cidades como El Jadida (ex-Mazagão) ou como Essaouira (ex-Mogadouro) estão lá para nos recordar que Portugal esteve presente em Marrocos, passando-se o inverso em Portugal, onde existem muitas palavras de origem árabe, assim como vestigios a nível arquitectónico, sobretudo na região do Algarve.
Do ponto de vista económico, quando observamos as estructuras das duas economias apercebemo-nos que os dois países partilham uma estreita semelhança estando dependentes do funcionamento das suas economias respectivas das PME e PMI, especialmente porque as áreas da indústria, da agricultura e dos serviços representam uma similaridade que pode permitir ás nossas duas economias, neste sentido, abordarem o mercado regional e internacional não só numa lógica de concorrência, mas de complementaridade. E esta complementaridade pode encontrar toda a sua envergadura ao conduzir os sectores privados marroquinos e portuguêses a encarar a abordagem do conjunto dos mercados africanos, latino-americanos e árabes, aliando os pontos fortes de cada uma dessas áreas geoestratégicas, numa óptica trilateral.

DM – Karima Benyaich foi um caso de sucesso em Portugal. Que conselhos daria ao seu sucessor para o exercício do cargo que

KB – Se se fala de sucesso, foi graças a todo o apoio que recebi, durantes estes magnificos anos, de todos os prtuguêses com quem partilhei quase uma década.
Como sabe o meu sucessor é um homem de grande qualidade e um profissional da diplomacia económica. Não tenho dúvidas que porá a sua marca nesta evolução constante e dinâmica que caracteriza as nossas relações e contribuirá para este edificio, que se constrói ao longo dos anos, por ambas as partes, num espirito de amizade, de respeito mútuo, de solidariedade e de confiança partilhada.

DM – Nesta passagem por Portugal quais os acontecimentos/momentos que mais a marcaram?

KB – Há tantas coisas a realçar em 9 anos. Sem sombra de dúvidas, não há maior privilégio na vida do que servir o seu país, servi-lo num país como Portugal, o mais antigo Estado-Nação do mundo, foi uma enorme honra.
Esta honra é ainda maior, dado que no decorrer da minha Missão tive o imenso privilégio de criar uma relação de amizade com grandes personalidades do mundo politico, económico, cultural e da sociedade civil. Retiro desta experiência excepcional, que a riqueza de uma Nação reside antes de tudo na sua civilização e no valor do seu povo, este povo que me impressionou pelas suas qualidades humanas e profissionais.
É por isso, que Portugal personificará sempre para mim esta grande Nação na vanguarda das  grandes causas ; essa grande cultura que defendeu constantemente as virtudes do humanismo ; esse grande país que sempre foi capaz de elevar bem alto os valores da abertura, do pluralismo e do diálogo.
Fiquei impressionada pelo amor que os portuguêses têm pelos interesses da sua nação e pela dignidade com a qual este povo lida com os desafios.

DM – Sempre afirmou que valorizava muito a cooperação cultural como forma de aproximação entre os povos. Acha que essa aproximação cultural entre Portugal e Marrocos existe? O que acha que pode ser feito neste campo para aproximar ainda mais os dois países?

KB – Ao longo da minha missão em Portugal, dediquei uma atenção particular na promoção da cultura marroquina, em toda a sua diversidade, vestuário, culinária, musical, cinematográfica, e de uma maneira geral, artesanal. Um conhecimento mútuo da nossa história e cultura respectivas, é a base para uma aproximação mais profunda entre os nossos dois povos.
Neste sentido, celebrámos este ano o 60º aniversário do estabelecimento das relações diplomáticas entre Marrocos e Portugal, sob os auspícios de S.E. o Senhor Presidente da República, e esta comemoração foi a ocasião, como muitas outras durante esta década, para dar a conhecer e partilhar com os nossos amigos portuguêses e o público em geral, muitos pilares da nossa rica cultura. Assim, organizámos uma noite musical e um desfile de moda de caftans, e vestidos de cerimónia femininos, num local emblemático da vila de Cascais, o Palácio presidencial da Fortaleza de Cascais. Paralelamente a este evento, organizámos uma exposição de tapetes e uma outra de quadros de um pintor de renome, pudendo assim, oferecer ao público português uma amostra da diversidade do nosso património cultural.
Cito estes eventos organizados este ano, a título de exemplo, sabendo que seria dificil fazer um balanço exaustivo de todas as manifestações culturais que a Embaixada organizou individualmente ou com outros parceiros, igualmente preocupados em promover este conhecimento mútuo entre os dois povos, próximos e amigos.
Gostaria de realçar também o papel activo das associações dos marroquinos residentes em Portugal que muito contribui através das suas acções para a promoção da cultura marroquia dado que na sua maioria estão bem integrados em Portugal, um país aberto e tolerante.
Ainda há um longo caminho a percorrer, mas o objectivo que estabelecemos é claro, os marcos estão definidos e de ano para ano colocamos simbólicamente uma pedra neste edificio, construido sobre uma amizade e um respeito partilhado e enriquecido por uma sede de conhecimento de ambas as partes. E o número crescente de turistas, universitários, estudantes e investigadores  que se interessam pelo nosso património comum, é dia após dia, uma promessa de sucesso na conclusão desse conhecimento mútuo.

DM – Que argumentos poderia apresentar aos empresários portuguêses para investirem em Marrocos?

KB – Marrocos conheceu estes últimos anos, sob a liderança de Sua Majestade o Rei Mohammed VI, um grande desenvolvimento e grandes reformas o que fez com que, o mercado marroquino goze de numerosas vantagens, para além da proximidade geográfica e cultural a que já me referi:
O clima dos negócios é dos mais atractivos de Africa e no mundo Árabe. Basta recordar os dois últimos relatórios de 2016 e 2017 que confirmam o lugar de Marrocos como plataforma de investimento privilegiada na região.
A isto, soma-se a visibilidade fornecida pelas estratégias sectoriais de desenvolvimento, que traçam para cada um dos sectores em questão, a energia, a indústria automóvel, o têxtil e a indústria farmacêutica, os objectivos claros e as oportunidades que podem ser aproveitadas por estes parceiros.
Para suporte destas estratégias, Marrocos desenvolveu toda uma infraestructura de acolhimento e de desenvolvimento das empresas, através de zonas francas, zonas indstriais , capazes de atrair projectos de envergadura em todos os sectores.
Marrocos dispõe actualmente de uma capacidade demonstrada, de realizações de grandes projectos, que necessitam de montagens financeiras complexas  que acompanhem a credibilidade junto das instituições financeiras internacionais. Esta confiança explica-se igualmente pelo conjunto dos recursos humanos qualificados disponíveis, que se destacam em toda a região.
Uma outra vantagem importante consiste na abertura de Marrocos a uma grande zona de comércio livre, conferindo ao mercado marroquino um potencial de mais de mil milhões de consumidores.

 

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