País de Marinheiros, ou talvez não!

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Somos um País de Marinheiros, temos dos melhores Planos de Água do Mundo, um clima de exceção (agora demasiado seco) e quase nada acontece no Mar Português.
Há mais de três décadas que acompanho a vela nacional e é com grande tristeza que constato que poucas coisas mudaram ao longo dos anos.
Na euforia da Expo 98 houve verbas que apetrecharam os muitos clubes náuticos de norte a sul do País com pequenos Optimits, os Clubes do Mar, que achava eu – iriam seduzir os nossos jovens e dirigentes a olhar de uma forma diferente para os tais fantásticos Planos de Água.
Afinal os pequenos barcos foram ficando desativados lentamente, a ocupar espaços nos armazéns dos clubes e sem utilização. Nem os protocolos com o Desporto Escolar os salvou. Claro que não é fácil transportar jovens das escolas para as margens do rio, as barragens ou o mar, perder umas horas dentro de água e regressar à escola. Isto implica muito tempo, algum dinheiro e muita organização e dedicação.
Os pequenos clubes têm lutas titânicas para manter as suas escolas de vela, organizar alguma competição e estão muito limitados financeiramente para realizar o sonho de colocar os mais hábeis em competições internacionais.
Todos sabemos que velejar não é fácil, não porque os nossos jovens não “tenham jeito” para a coisa mas porque há uma série de procedimentos que não são fáceis de cumprir (a água está fria e às vezes o barco vira, fica-se molhado, as ondas assustam, o vento é por vezes forte…) e por tudo isto é preciso realmente ter uma grande paixão para se continuar a velejar.
Nunca me esqueço de há uns anos estar na Baía de Bergen, com um vento fortíssimo e quase a chover e ver chegar a terra um pequeno 420 com duas jovens, mesmo muito jovens, que tinham ido treinar para uma competição que se ia realizar nesse fim de semana e… era para ganhar, diziam elas.
Realmente a relação que todos temos com o mar varia de País para País e parece-me que no nosso caso concreto deveria estar mais enraizada.

A Aporvela – Associação de Treino de Mar tem feito um trabalho de excelência nesta área. Meteu mãos à obra, construi Caravelas e tenta chegar aos mais novos através da história que a bordo se transforma numa aula prática. A Vera Cruz faz regularmente saídas com grupos de jovens marinheiros que não tenho dúvidas nunca mais esquecerão esta experiência.Também atracada recebe visitas de escolas que a bordo olham para os feitos dos nossos navegadores de uma forma diferente, com uma enorme admiração de como foi possível conseguir desbravar novos mares, que medos enfrentavam e que desafios sem fim.
Seria importante, digo eu que sou uma apaixonada pelo mar, que a Aporvela e a sua Caravela Vera Cruz fossem a parte prática das aulas de história, tenho a certeza que nunca mais haveria negativas nesta disciplina e outros projetos iriam surgir (fica a sugestão para o Ministério da Educação).
O esforço da Aporvela tem sido de “Adamastor” desdobrando-se em trazer para águas nacionais os grandes veleiros – TallShips. Este ano os TallShips rumaram à terra de Vasco da Gama – Sines, o ano passado a Lisboa onde marcaram presença alguns dos mais bonitos veleiros de grande porte do Mundo. Com a bandeira lusa esteve a nossa Sagres, o Creoula, o Sta. Maria Manuel, a Vera Cruz entre outros. Os embarques de jovens portugueses ultrapassaram todas as expectativas e para orgulho de todos nós até houve um jovem de 22 anos, engenheiro de formação, que se aventurou em diferentes veleiros a ir até ao Canadá cumprindo todo o percurso, falamos de Duarte Soromenho “uma experiência a repetir sem dúvida”
Os clubes continuam a organizar muitas competições internacionais sempre com apoios muito limitados, uns com maior exposição mediática que outros.

Recentemente tivemos no Rio Tejo os veleiros da Volvo OceanRace que permitiram perceber quanto profissional é a vela internacional. Apoios de empresas com verbas de muitos milhões e que contratam para as suas tripulações os melhores velejadores do mundo. É sem dúvida uma das regatas mais duras de sempre, o esforço e a determinação são essenciais para quem quer estar a bordo, não duvidamos que são uma inspiração para quem se quer fazer ao mar.
Os veleiros são espartanos, desde os objetos, roupa, produtos de higiene que as tripulações podem levar para bordo até à comida e às horas de descanso tudo é levado ao extremo, mas integrar uma destas tripulações é o sonho de qualquer homem ou mulher que fazem da vela a sua vida.
Três jovens portugueses não se assustaram com todas estas exigências e num verdadeiro ato de coragem fizeram-se ao mar. São velejadores de mão cheia, já participaram em muitas competições e desafios internacionais e agora quiseram mostrar que a história dos portugueses no mar tem continuidade.
Bernardo Freitas e Frederico Pinheiro de Melo, velejadores olímpicos integraram uma tripulação com a única skipper feminina – a britânica DeeCaffari no veleiro TurnThe Tide OnPlastic, apoiado pela Fundação Mirpuri, uma organização sem fins lucrativos.
Também António Fontes que já cumpriu a mítica Transatentre outras provas offshore integra a tripulação da SHK Scallywag, a primeira equipa de Hong Kong a participar na Volvo.
Não tenho dúvidas que terminada a Volvo estes novos navegadores trazem na sua pequena mochila muitas histórias reiais para contar e que iriam fazer com que muitos outros jovens das nossas escolas tivessem uma forte motivação para se fazerem ao mar. Mas… e haver alguém, alguma organização que desenvolva esse trabalho de mostrar que também somos capazes?
Bom isso é que é mais difícil, talvez eventualmente pedir ao Presidente Marcelo (que por acaso há uns anos velejou no pequeno veleiro de Francisco Lobato que ganhou a Transat) para dar um forte abraço à Vela Nacional e pôr assim nas bocas do mundo a nossa vela!

Ana Lima
CEO da ALC Comunicação

 

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